Notas Várias Sobre o Percurso de João Martins Pereira
2010
1.Conheci o João logo no meu 1º ano do Técnico. O nosso ponto de encontro foi a Associação de Estudantes. Ele, mais velho três anos, era um participante destacado nas actividades associativas. Não era um “activista” compulsivo, antes um interventor selectivo com particular queda para ajudar a pensar e a resolver problemas de fundo com que a Associação se debatia. Tinha já então uma cabeça bem arrumada, uma grande bagagem intelectual, uma lógica de intervenção coerentemente sustentada. Era, como sempre, muito exigente para consigo próprio. A sua confissão de que “era a ignorância do mundo, das coisas e das pessoas” está bem longe da realidade que o seu convívio quotidiano nos revelava. Era o oposto, na relatividade da sua juventude. No rigor do seu espírito aberto ao aprofundamento sistemático de uma síntese de saberes, que culminou com a sua pós graduação em Paris. Nessa expressão aponta apenas a enorme exigência que a si próprio se impunha.
2. O seu contributo para o êxito da luta estudantil contra o 40900 merece ser destacado. O ponto alto da capitulação do regime ocorreu na Assembleia Nacional em Janeiro de 1957 num debate em que Daniel Barbosa, professor de Economia no Técnico, fez um extraordinário discurso contra o 40900*, bem acompanhado por outro professor da Universidade de Coimbra. A situação criada forçou Salazar a anunciar a suspensão do decreto-lei através do líder da Assembleia Nacional, Mário de Figueiredo. O João, juntamente com Nogueira Simões, foi o advogado, por assim dizer, do Movimento Associativo junto do Prof. Daniel Barbosa, com o reflexo acima referido.
3. As aulas que dávamos no ISCEF [Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, hoje ISEG] tinham filiação num plano pedagógico estruturado mas não seguiam o modelo tradicional. Privilegiava-se a exposição e, sobretudo, a discussão da estrutura sistémica das economias industriais contemporâneas, segundo interpretações plurais. Pessoalmente tirei enorme satisfação dos contributos que o João dava em diálogo com os estudantes, nomeadamente quando se discutiam as ideias, bem diferentes, de Galbraith e Baran e Sweezy.
4.Quando o João estava no Tempo e o Modo, a revista decidira publicar um artigo que veio a ser “A Longa Descoberta do Caminho Marítimo Marítimo para a Europa”. Quis o João associar-me a esse projecto desde o início. Já em 1969, tínhamos trabalhado com mais alguém no livro Crítica a alguns aspectos do Plano de Fomento, publicado sob o pseudónimo colectivo Álvaro Neto.
Passámos algumas boas horas a refazer o roteiro para a Europa. Nada me deu mais satisfação do que ver o João ir bastante mais além através do Pensar Portugal Hoje merecidamente o livro de referência da esquerda não sectária que começava a ganhar corpo depois das eleições de 1969.
5.A passagem do João pelo IV Governo Provisório teria precisado de mais alguns meses, poucos, para nos deixar valiosas propostas de reestruturação industrial de sectores ligados às nacionalizações ou a encomendas públicas. Designadamente, o João estava a preparar um programa de reactivação da metalomecânica na base de uma coordenação descentralizada com ampla participação da Comissão de Trabalhadores. A crise do início do Verão de 1975 corta cerce o avanço desse programa, então já muito próximo da conclusão. Poder-se-á recuperar a respectiva documentação?
6. Sei da ambição que o João punha na elaboração de uma série de investigações sobre a industrialização pós a II Guerra Mundial em Portugal. O uso e abuso do poder com raízes tão fortes que ainda hoje perduram em alguns campos da vida nacional. O livro Para a História da Indústria em Portugal 1941-1965:Adubos azotados e siderurgia tem uma base de investigação absolutamente invulgar em Portugal, como tive ocasião de revelar quando, a seu pedido, fiz a apresentação do livro. Durante a sua elaboração conversámos várias vezes sobre acontecimentos que ambos vivemos, embora segundo perspectivas, profissionais e outras, diferentes. Foi pena que não tivesse a possibilidade de continuar esse projecto. Talvez a exigência de rigor e profundidade estivesse para além do que as nossas circunstâncias admitem. Mas o João era assim. Por isso temos orgulho em celebrar o seu percurso.
* O 40900 foi um decreto-lei que o governo de então resolveu deitar cá para fora sobre as actividades circum-escolares. As associações viviam de um decreto-lei de mil novecentos e trinta e tal mas tinham conseguido arranjar um modus vivendi. [...] O 40900 levantou uma onda de protesto porque tinha uma filosofia que era esta: tudo aquilo que era o apoio circum-escolar - que era feito pelas associações – passava a !car centrado no Ministério da Educação. No fundo tirava à Associação tudo aquilo que era apoio e deixava-nos a nós actividade cultural, desporto, etc. Tiveram a triste ideia de aplicar isso à AAC [Associação Académica de Coimbra]. Foi um processo longo de lutas das Associações de Lisboa e Coimbra. [Prostes da Fonseca]
in João Martins Pereira – o seu nosso tempo: Bio-Bibliografia. Coimbra: CES / CD25A, 2011, p. 2021